sábado, 16 de janeiro de 2016

Capítulo 8 - A menstruação sem fim

Petrônio carregou as malas e as colocou no carro. Deu um beijo na amada, outro na filha e voltou para casa. Judite já estava na cozinha preparando o café. Ainda se ouvia o ronco do carro ao longe quando o patrão virou-se para ela e disse:

- Eita que hoje a noite a cutia vai piar!
Só o jeito que ele olhara para ela já dava pra entender o que estava por vir. Judite estava imaginando o que ia acontecer nestes sete dias que a patroa iria ficar fora de casa. Se com a esposa em casa a coisa é daquele jeito, imagina ela fora.
- Minha Nossa Senhora, vou ter que fazer alguma coisa ou esse homem vai acabar comigo dessa vez! – Pensou em voz baixa, enquanto Petrônio tomava seu café com os olhos fixos no seu traseiro.
- Você falou alguma coisa?
- Não senhor, tava pensando aqui só.
Petrônio colocou o chapéu e saiu rapidamente. Parecia estar com pressa, ou para os afazeres do serviço ou pra chegar mais cedo.
Em casa a pobre Judite ficava num pé e noutro sem saber o que fazer, até que lhe veio uma ideia.
Como era esperado, cinco da tarde Petrônio chegou. Estranho! Porque quando Helena está em casa, é costume dele retornar depois das seis.
Ao subir o batente, Petrônio estranhou o que viu. Cinco toalhinhas estendidas no varal, logo ali na entrada.
Ele sabia que sempre que as “toalhinhas” estavam estendidas, era porque alguém estava naqueles dias. Mas, se não era a esposa, quem poderia ser? E mais, Helena nunca estendeu suas “toalhinhas” ali, bem na frente.
- Judite, ô Judite! – Entrou esbravejando e furioso.
- Sim senhor seu Petrônio. – Judite veio acelerada até a sala ao ouvir os gritos do patrão.
- Que diacho são estas toalhinhas ali na frente da casa?
- Que toalhinha seu Petrônio?
- Ora não se faça de besta!
- Ah, é porque eu fiquei doente hoje e... – Petrônio nem deixou a coitada terminar de falar.
- Pois trate de tirar aquilo dali que não é lugar. Parece até que tá mandando recado!
- Sim senhor, é pra já!
- Espera, volte aqui. Eu sei contar os dias viu!
- Sim senhor. – Judite estava nervosa e procurou sair correndo da frente daquele homem, antes que ele lhe devorasse do jeito que tivesse, pensou ela.
Naquele tempo não havia absorventes, O Modess, da Johnson & Johnson, foi o primeiro absorvente descartável a chegar ao Brasil. Sabe-se que há pelo menos 2 500 anos as mulheres já usavam alguma coisa para conter o fluxo sanguíneo "naqueles dias". Um dos primeiros registros dos absorventes aparece nos manuscritos do grego Hipócrates, que viveu entre 460 e 370 a.C. e é considerado o pai da medicina. Até o início do século 20, o absorvente mais usado eram as "toalhinhas", as que estavam estendidas na frente da casa, nome popular das faixas de tecido dobradas em três partes, depois lavadas e reutilizadas. Elas não eram tão práticas como os produtos de hoje, mas cumpriam bem sua função, desde que fossem utilizadas bem sequinhas, evitando a umidade que traz inflamações e fungos.

Petrônio já havia entendido tudo e com mais raiva ele ficou, ao saber que suas esperanças de possuir aquela mulata tinha ido por água abaixo. A canoa tava furada, como diziam.
Judite foi muito esperta ao inventar aquela estória, mas sabia que durante três dias ela poderia enrolar o patrão, porque ele sabia, ao longo da convivência, os dias que Judite ficava menstruada, então aguardaria o tempo necessário, lhe restando ainda quatro dias até a chegada da mulher.
Petrônio saia pela manha e voltava a noite irritado. No entanto, para Judite era melhor tolerar a raiva dele do que outra coisa muito maior. O que mais lhe irritava, era ver no quintal as toalhinhas penduradas no varal, como sinal de que nada poderia ser feito.
E se passaram os três dias.
No quarto dia, Petrônio já acordou menos zangado, porém nem dirigiu a palavra à Judite e saiu às pressas. Ela sabia que aquela pressa toda era sinônimo que retornaria mais cedo. E agora, o que fazer? 
Então Judite resolveu apostar tudo ou nada. Ela sabia que o que lhe veio à cabeça poderia dar certo ou não, mas não lhe restava outra opção e pôs o plano em prática.

Nenhum comentário:

Postar um comentário