Manuela aproveitou a
empolgação da sobrinha e de malas já arrumadas, pediu para que o Jarbas
preparasse o carro e seguiram para o aeroporto. A viagem seria longa até
Chicago, onde Júlia vai viver um novo episódio da sua vida, cheio de surpresas
agradáveis e desagradáveis.
Dois dias se passaram e os
trabalhos continuavam todas as noites, na “casa da Manu” sob o comando da fiel
escudeira Zenaide.
“A Festa no Sarau”
- Dona Zenaide, queria
pedir uma coisa pra senhora! – Falou cabisbaixa uma das meretrizes, enquanto
Zenaide fechava a contabilidade do dia anterior.
- Vai falando Beatriz, que to muito ocupada.
- É que o comendador convidou as meninas pra um sarau que vai ter na casa dele
neste sábado. E já que aqui vai estar fechado, queria saber se nós podemos
ir... – Interrompeu Zenaide.
- Quer dizer que nem bem a leoa arreda o pé, as macaquinhas já descendo galho?
Ora mas to vendo mesmo... E onde vai ser este sarau, se me faz favor?
- É na casa dele, como disse...
- Ah sim. De certo havias dito. Tá bom, pra não dizer que sou a malvada, como
ouço por ai, vou liberar.
- Brigada dona Zenaide..
- Epa! Perai, perai... Mas quero todas aqui domingo cedo viu! Terá trabalho
pela noite. Vou abrir a casa.
- Tá bom, vou avisar as meninas.
Beatriz era uma das
“donzelas” da noite. Diferentemente dos dias de hoje, as moças moravam e trabalhavam
na casa da Manu e não só de programas noturnos elas viviam. Meretrizes, tinham
vida social limitada. Alguns amigos e amigas, com quem desfrutavam de momentos
de lazer e diversão nos dias de folga e aquele sábado era uma exceção.
Um ônibus já estava a esperá-los no sopé da ladeira naquele início de noite e
todas as moças com alguns rapazes e conhecidos partiram para a festa do
comendador.
Logo no ônibus já desfrutavam de vinhos, canapés e champanhe. Enquanto as
senhoras se dedicavam ao crochê, aproveitando a viagem de duas horas.
A casa do comendador ficava num retiro, onde apenas senhores de títulos se
davam ao luxo de visitá-lo, de vez em quando e eram raras as ocasiões de festa
como aquela. Porém, como freqüentador assíduo da Casa da Manu, não poderia
deixar de convidar belas moças para abrilhantar o ambiente, de forma discreta e
muita formosura.
Logo no ônibus, metade da viagem, o licor já havia subido a cabeça de alguns,
pois se percebia alteração de voz alta e algumas donzelas dormiam nas poltronas,
enquanto outros dialogavam livremente.
- Perdoe-me senhora, qual a
sua graça?
- Beatriz Lisboa.
- Encantado senhora. Eu a observava pensante, por isso resolvi indagá-la.
- Desculpa senhor, mas é que estou apreciando a paisagem, a tempos que não ando
por estas bandas.
- Realmente, a vista é de uma beleza deslumbrante, igual a madame.. – Em tom
galanteador.
- ( Risos), - Ora, mas assim o senhor me deixa envergonhada...
E desta forma, cheio de
arrodeios, eles foram conversando e o tempo passando. Apesar do homem saber do
que trabalhava a pobre Beatriz, as conversas naquela época não eram tão
objetivas como de agora. Primeiro surgiam os galanteios, elogios e por fim o
namoro, até o ato final.
Chegando na residência, casa de pura nobreza, convidados ilustres, vários
serviçais acompanharam os convidados até seus aposentos, especialmente
selecionados pelo anfitrião, conforme o título de nobreza.
A noite chegou e todos começaram a subir para o hall da festa. Um grande salão
com candelabros riquíssimos em ouro e prata.
Uma orquestra ao fundo tocava músicas clássicas, estilo choppin e Vivaldi,
enquanto alguns deslizavam no salão polido igual sabão.
Mas como toda festa, o começo é tímido e a proporção que a noite adentra e o
álcool sobe a cabeça, a timidez vai dando espaço para a extroversão e cada um
cuida de mostrar a que propósito veio.
Já era de madrugada e a festa continuava. Alguns exageravam na bebida e já
debruçavam sobre as mesas, repletas de comida e petiscos, enquanto os nobres,
em seus camarotes, tratavam de negociatas e jogavam conversa fora.
Num dos corredores da casa, já se viam casais enamorados. Mas uma situação
inusitada chamou a atenção.
Debaixo de uma roseira, um rapaz moreno, alto, estava sentado num banco e por
traz dele percebia-se apenas a sombra de um vestido, que por certo era de uma
mulher. Ambos conversavam.
- Há horas observava a
senhorita.
- E porque não chamou? – Retrucou a moça,com uma taça de vinho na mão.
- Porque sabia que as estrelas se incumbiriam desta providencia.
- Poético o doutor!
- Me chame Ramiro, seu criado
- Muita prazer, Sara.
Sem perder tempo, Ramiro foi
direto na investida, convidando a moça para um passeio mais afastado.
- Não adiantará nada
sairmos daqui, o que você esta pensando não irá acontecer.
- Desculpe, mas não seria
assim tão ousado...
- Há é o que todos os
homens dizem. Estou acostumada rapaz – Interrompeu Sara, em tom de deboche.
Mesmo assim, com todo
aquele bate-boca, Sara ia caminhando e se afastando do barulho da festa e para
um lugar mais escuro.
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