sábado, 16 de janeiro de 2016

Capítulo 33 - Tentativa de estupro

Manu sai do quarto de Petrônio enrolada numa camisola e passa sorrateiramente pelo corredor antes da cozinha, sem que Zenaide e Júlia percebessem. Elas estavam sentadas à mesa do café, proseando displicentemente.

Minutos depois Petrônio sai do quarto, de barba feita e já pronto para a viagem.
- Pai, é o senhor?
- Bom dia filha. Sim.
- Benção!
- Deus te abençoe. Tomou seu café?
- Sim, junto com a tia Zenaide. Ela foi muito atenciosa comigo.
- Ora, foi um imenso prazer prosear com a menina Júlia – Retrucou Zenaide fitando os olhos em Petrônio, que tomava café com um apetite daqueles e continuou.
- O seu pai parece que dormiu bem, não é seu Petrônio?
- Como assim... Ah sim, claro, dormi muito bem.
- É, dá pra perceber, pelo seu apetite... – Antes que a Zenaide concluísse com seu ar de deboche, a anfitriã adentra o recinto.
- Mas é lógico, afinal, dizem os mais sábios que o sono alimenta, mas uma boa canjica alimenta muito mais. – Em tom ríspido, falou Manu dirigindo-se para Zenaide.
- Bom, não entendi nada desta conversa de vocês, mas também, não carece. Já to de saída mesmo. Vem Júlia, preciso deixar algumas coisa pra você.
Petrônio se retira da mesa e leva Julia consigo até a sala, onde começam a conversar e o pai a lhe passar algumas recomendações. Enquanto isso, ainda na copa...
- Então a amiga está preocupada com o Petrônio né?
- Claro que não. Só estava querendo ser amigável.
- Olha aqui Zê, espero que se lembre que sou eu que ainda mando nesta casa e não preciso de ninguém me vigiando...
- Êpa! Para lá querida. Não tenho culpa de deixarem a porta aberta. Teve sorte sua sobrinha não ter chegado primeiro.
- Já que foi você. Então é isso mesmo que você viu e ouviu. Agora, vá cuidar dos seus afazeres que hoje eu quero a casa cheia.
Zenaide se retira furiosa da copa.
Braço direito da patroa, não era a primeira vez que presenciava estas orgias e de nada adiantava recriminar, pois ela sabia das intenções de Manuela para com seu cunhado, assim como Manuela sabia que não podia vacilar com a secretária da casa de shows.
Quatro horas da tarde e Petrônio ainda estava a caminho de casa, naquele ônibus velho que fazia o trajeto para o interior. Cadeiras de molas quebradas, sem muito conforto, aguentava os solavancos da estrada. No entanto seu pensamento longe, fitando o horizonte coberto de poeira e vegetação seca, aquele homem viajava em contradições de pensamento. De repente lhe vinha à mente a conversa com Helena, suas discussões, a insensatez da esposa, em seguida seu pensamento mudava para os momentos de amor com Manu e assim iam se misturando num sentimento de culpabilidade, remorso e loucura.
O coração de Petrônio sempre teve estas divisões, uma luta constante contra o bem e o mal, o certo e o errado, o amor e a paixão. Sim a paixão. Diferente do amor.
Um mês se passou e Julia se preparava para viajar no dia seguinte.
A tia havia conseguido, por meio de sua influência, uma viagem para Londres, onde Júlia iria se submeter a um tratamento.
Era uma tarde de chuva, porém abafada no Rio de Janeiro. A casa de show estava preparada para aquela noite e prometia receber muitos clientes.
Manu já havia recomendado inúmeras vezes para que Júlia não ultrapassasse aquela porta ao final do corredor, que ficava após a cozinha. 
Mas a curiosidade era tanta, que Julia não suportou e mesmo sabendo que estará contrariando a tia, ela foi lentamente caminhando em direção àquela porta. Cada paço que dava, ouvia um barulho que ia aumentando. Parecia conversas e gargalhadas de mulheres.
Apesar da sua dificuldade de ver, sua percepção auditiva ia progredindo gradativamente.
Ela tocou a maçaneta, foi virando e finalmente abriu a porta, que dava para uma escada. Na parte de baixo da escada, mesmo sem ela ver, estavam as moças do recinto, se maquiando e se preparando para a noite. Elas nem perceberam, mas Júlia desceu a escada e antes que pisasse o último degrau, ouviu uma voz ao pé do seu ouvido.
- Ora, ora, para onde caminha uma linda e jovem flor!
A voz era de um rapaz jovem, e pelo visto muito galanteador. Júlia tomou um susto e ficou parada, sem falar nada e sem respirar. Aos pouco foi retomando o sentido, e respondeu.
- Quem é você? Eu estava caminhando e vim parar aqui...
- Não fique nervosa jovem menina. Não há nada para ter medo.
A casa só abria os trabalhos as sete da noite, mas alguns clientes, a maioria bêbados, jogadores e desocupados passavam quase o dia todo por lá.
Aquele jovem era um boêmio, bêbado e passava o dia a perseguir as moças, que já não ligavam para as suas cantadas baratas.
- Com licença senhor, preciso subir novamente...
- Calma! Ah, percebo que a jovem criança não consegue enxergar muito bem. – Falou o homem já tocando no seu ombro, fazendo com que Júlia demonstrasse medo, recolhendo os braços sobre os seios.
- Senhor, desculpe, mas eu preciso subir.

De repente ele se põe um degrau à sua frente e interrompe o retorno de Júlia. Ela fica mais nervosa, principalmente quando sentiu que o sujeito começou a lhe tocar os braços e percebe uma respiração mais próxima dele.
Júlia estava atônita, paralisada e nervosa. Suas mãos geladas, sua perna bamba, sozinha, desprotegida e arrependida de ter aberto aquela porta, que tanto sua tia lhe recomendou não abrir.
O bêbado então começou a lhe apalpar e roçar no seu corpo, aproveitando-se da letargia da indefesa. Ele foi puxando e afastando-a do salão, levando-a lentamente para debaixo da escada, num ambiente mais isolado e escuro, sem que ninguém percebesse.
Ela não tinha nenhuma reação. Diferentemente das preliminares que vivera com seu namoradinho na fazenda, Julia sabia que algo parecido poderia acontecer, sem seu consentimento. É nestas horas que toda mulher se sente frágil, indefesa e violentada, mesmo antes da consumação dos fatos.
Ele a joga sobre uns fardos de açúcar e começa a acariciar seu corpo com movimentos mais audaciosos.
Sem enxergar nada, Júlia não esboça reação. Sua voz travada, seu grito sucumbido na garganta, nada. Nada podia fazer diante de um momento como aquele.
Com audácia os toques de carinho caminham para entre suas pernas e ele lhe rasga a blusa. O corpo de Julia se contrai, como numa reação instintiva ela consegue forças para travar suas pernas, quando que de repente...

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