sábado, 16 de janeiro de 2016

Capítulo 24 - Ousadia

Enquanto isso o dia amanhecia lá fora, com raios trespassando as brechas do telhado e clareando as gotículas de água que pingavam das samambaias na varanda, que caiam sobre o chão orvalhado.

Petrônio montou o cavalo e partiu para mais um dia de muito trabalho. As coisas não andavam muito bem nas vendas do comércio. Apesar daquele bom pedaço de hectares de terras, de nada adiantava para quem não tinha trato com animais ou qualquer outro tipo de cultivo.
Ao chegar ao armazém, Petrônio já foi brigando com os empregados. Cedo eles chegavam, mas a preguiça não os permitia abrir as portas e começarem a vender.
- Mas eu quero saber se vai cair a mão de vocês. Todo dia é a mesma coisa. Quem esqueceu a chave dessa vez?
Ninguém se acusou. Na verdade a chave sempre fica pendurada na porta pelo lado de dentro e como o patrão é o último a sair, termina levando a chave e reclamando no dia seguinte. Vai entender!
- Mãe, o que queria esta tal advogada? Ainda é coisa da tia né?
- Filha, você ainda é muito jovem para entender destas coisas. – Respondeu Helena sem parar os afazeres da cozinha.
- Aquela moça que tava com ela, me pareceu tão, tão...
- Tão o que? Estranha?
- Sei lá, ela me olhou assim diferente. Como se me conhecesse. Por um momento pensei que ela queria me falar algo... Acho que foi só impressão minha.
- Pois é. Cuida logo com esta louça que temos que ir comprar algumas coisas que tão faltando na cozinha.
Enquanto isso no armazém do Petrônio.
- Bom dia. Gostaria de falar com o Sr. Petrônio. 
- Ele tá ali, atrás do balcão...
- Ora mas que ventos a trouxeram tão rápido. Pensei que essa prosa ainda demorar mais dia...
- Na verdade seu Petrônio, minha cliente tem muita pressa de encerrar com este assunto. – Interrompeu a Dra Zenaide.
- Não acredito que isso tenha um ponto final assim tão fácil.
- É o que vamos ver. Alias, minha cliente veio tratar disso pessoalmente.
Antes que a interlocutora terminasse de falar, eis quem entra no recinto.
- Manuela! – Falou Petrônio gaguejando e com surpresa.
Parecia ter visto fantasma, de tão branco que ficou, olhos arregalados e se apoiando no corremão da escada.
Manuela estava vestida de preto, vestido longo e com borda rendada, luvas até o braço e com um chapéu muito típico dos saraus e festas da nobreza. Era uma elegância sem igual.
- Não imaginava que iria te assustar tanto, cunhado. – Falou Manuela em tom de deboche.
- O que você está fazendo aqui? Ficou louca? – Respondeu Petrônio, agora já recuperado do susto.
- Pensei que a convivência com Helena tinha te deixado mais educado. Não vai me convidar para entrar, sentar?
- Seja breve. Entra, senta e desembucha logo de uma vez por todas que estou com a Dra. Zenaide... Espera ai! Quer dizer que sua cliente é...
- Não Petrônio. – Interrompeu Manuela. – A Zenaide, que não é Zenaide, ela não é minha advogada. Para falar a verdade ela é uma das meninas da minha casa de festas.
- Não to mais entendendo é nada!
Petrônio começou a se arreliar e ficar nervoso. Era muita surpresa para um dia só.
- Que casa de festa? Sua menina... Pode se explicar melhor!
- Petrônio, as coisas não estavam muito bem para mim, depois que o banco resolveu cobrar a hipoteca da casa. Ai foi o jeito eu vender a mansão que o pai deixou e ficar com a casa da Urca. Não tinha outra forma de viver e minha influencia na política me ajudou a montar uma casa de festa, uma casa noturna.
Mas os homens não se contentavam só em comer, beber e jogar. Eles queriam mais. Suas esposas se encarregavam dos afazeres do lar, de algumas noites de obrigação e eu lhes dei mais que obrigação. Eu dei diversão, prazer...
- Você virou quenga? – Falou Petrônio com tom de desprezo e raiva.
- Não Petrônio. Eu apenas agenciei as meninas. Só fiz um favor para aqueles homens velhos, gordos e rabugentos, mas com muito dinheiro para gastar. Há oito anos as coisas vão de vento em popa. Mas nem tudo é alegria.
- Não to entendendo. Onde você quer chegar com toda esta história?
- Tenho uma proposta pra você.
Dava para perceber o quanto aquela história abalou Petrônio. Ele estava atônito com tudo aquilo.
- Mas que proposta? Desembucha logo mulher!
- Sabe Petrônio. Eu queria acabar de uma vez por todas com esta briga pelas terras. Você tem uma filha com minha irmã, ta moça já. Eu a vi no dia que a Carol foi na sua casa. Era eu quem estava no carro, esperando do lado de fora.
- Espera ai. A Zenaide é Carol? E a moça que minha filha viu lá fora era você... Agora to entendendo... mas, continua.
- Eu te abro mão das terras Petrônio, se você for embora comigo.
Helena que ia às compras, resolveu passar no comércio e entra no exato momento que Manuela conclui sua proposta.

- Mas o que é que eu acabei de ouvir? – Grita Helena, entrando apressada e virando-se de frente para a irmã.

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