sábado, 16 de janeiro de 2016

Capítulo 14 - A investida

Victor não era mais aquele menino, que ha doze anos passou alguns dias na fazenda, correndo atrás das galinhas e das criações no terreiro.
O garoto cresceu, virou um jovem varão, alto, branco, cabelos negros puxado todo para um lado e para o outro, no estilo ”Razor Part” que significa “divisão feita por navalha”. Era uma tendência da época quando os homens andavam impecáveis, com aqueles cabelos lambidos e brilhosos. Nariz afinado, sobrancelhas finas e de uma elegância sem igual.
Afinal de contas, para quem estudava direito na Universidade de Toulouse na França, não era de se estranhar tamanha educação e postura refinadas.
- Mas a quem devo a honra da sua visita? – Falou Petrônio descendo as escadas e cumprimentando Miguel, tio da Helena.
- Sabe rapaz, a idade não me permite mais a agilidade de outrora, mas pelo menos ainda posso carregar minhas malas.
- Ora não se preocupe que eu e o Victor damos conta disso. – E foi pegando a mala de madeira das mãos de Miguel, jogando ao ombro e subindo as escadas da casa.
- Benção tio! Seja bem vindo.
- Helena minha querida sobrinha, desde aquela época que vim aqui buscá-la com sua filha não tivemos mais contato. Como está a criança?
- Muito bem de saúde. Dormindo agora. Victor, nossa como você cresceu e ficou bonito menino.
- Prima, assim você me deixa envergonhado.
- Pois vamos entrando todos, que o café já está na mesa.
Todos entram conversando enquanto Judite termina de colocar a mesa do café com bolos, leite, algumas frutas silvestres e sucos variados.
- Mas quem é a moça prima, tão bem prendada? – Perguntou Victor olhando fitamente para Judite.
- É nossa criada. Quando você esteve aqui ela não morava ainda.
Aquela pergunta soou para Petrônio como uma investigação de interesse. O que teria chamado a atenção de Victor naquela moça? Um rapaz acostumado com a beleza das mulheres francesas não iria se interessar por uma simples empregada no Brasil? – Pensou ele.
Tomaram o farto café e depois foram para a sala prosear, enquanto Helena e Judite tiravam as louças da mesa.
- Então me diga rapaz, quanto tempo pretende passar no Brasil? – Perguntou Petrônio para Victor, tentando desviar o olhar dele do traseiro de Judite.
- Tio, há oito anos o presidente Getúlio finalmente criou a Ordem dos Advogados do Brasil. A previsão era pra 1843; não deu certo, mas o chefe do poder executivo aproveito a revolução e finalmente instituiu a Ordem. É o que mais se fala na Europa.
- Eu não entendo muito dessas coisas de política. A gente fica isolado aqui, dependendo dessa estrada. Seis meses e boa seis meses ruim. Mas tu já vai trabalhar de advogado?
- Ainda não. Tenho mais 3 anos de estudo. Só estou aproveitando as férias e colhendo algumas informações da classe. Acredito que no meu próximo retorno devo me filiar e atuar.
Enquanto conversavam, o seu Miguel cochilava tirado uns piaus.
- A prosa tá boa, mas vou deixar vocês descansarem um pouco. – Petrônio vai se levantando e o Victor lhe interrompe.
- Tio, me diga uma coisa. Essa... como é o nome mesmo da sua criada?
- Judite. – Respondeu Petrônio com ar desconfiado.
- Sim, a Judite, muito simpática ela e de um corpo bem arranjado... – Interrompeu Petrônio.
- Mas fica quieto que não é pro seu bico. Quero dizer, essa moça e de muita estima da Helena e espero que continue sendo. – Falou quase que zangado.
- Claro tio, só estava... Deixe pra La.
Já era a terceira vez que o rapaz se interessava pela criada. Petrônio não era bobo e desconfiava que aquela visita estivesse se transformando em algo que ele não contava. A concorrência era desleal. Enquanto quarenta anos lhe incorria nas costas, um galanteador de vinte e dois anos era uma das suas maiores preocupações no momento.
Depois que Petrônio saiu para o serviço, pai e filho foram para os aposentos, preparados para o descanso da viagem.
Ao acordar, por volta das duas da tarde, seu pai estava no terreiro, debaixo de um tamarineiro a conversar com Helena e a filha. Com muita fome, o rapaz se dirigiu para a cozinha a fim de comer alguma coisa. Eis que ele dá de cara com Judite, que estava retirando a lenha que sobrara no fogão.
- Com licença, teria alguma fruta aqui na cozinha?
- O Senhor doutor não prefere almoçar não? Ainda tem a carne de carneiro que sobrou do almoço.
- Por favor, não me chame de doutor. Sou estudante ainda. 
- Tá bom, vou esquentar pro senhor, quero dizer, pra você.
Enquanto Judite esquentava a comida, andando de um lado para o outro, Victor não tirava os olhos dela, acompanhando cada movimento seu, embevecido pelo seu corpo.
- Diga-me, há quanto tempo moras com a prima?
- Acho que uns cinco anos.
- De certo não estava aqui da ultima vez. Você é muito simpática.
Judite ruborizou nessa hora, pois nunca tinha ouvido nenhum elogio como esse de ninguém, muito menos do seu patrão.
- A comida tá quente, com licença que vou lavar umas fraudas da menina Júlia. – Meio sem jeito, enquanto enxuga as mãos na barra da saia, Judite vai saindo lentamente quando...
- Espera! Desculpa se de alguma forma lhe ofendi ou lhe deixei nervosa. – Falou Victor levantando-se da cadeira.

Judite lhe olhou mais uma vez e saiu quase que tropeçando em direção à porta do quintal.

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