sábado, 16 de janeiro de 2016

Capítulo 30 - O desembargador

- Querido, poderíamos conversar outra hora? Estou um pouco cansada...
- Não Helena, tem que ser agora!
Helena vinha evitando esta conversa há algum tempo, mas pela resposta do marido, estava claro que ela não poderia mais adiar.

Continuou Petrônio...
- Helena, sabes que as coisas mudaram de algum tempo para cá. Mas independente do que ainda teremos que conversar, o assunto agora é Julia.
Nossa filha precisa de cuidados especiais. Dá um dó olhar e ver que ela não tem mais a visão de antes. Antes eu brigava por ela estar correndo na chuva, perambulando por ai, mas agora eu juro por Deus que preferia estar brigando a vê-la do jeito que tá.
- Eu também sinto isso e me sinto mais do que culpada...
- Não terminei ainda – Interrompeu Petrônio. – Já disse que este assunto é pra depois. O que interessa agora é a saúde de nossa filha.
Antes de voltar da cidade, sua irmã foi muito generosa, deu todo apoio e propôs que Julia passasse uns tempos lá pra fazer um tratamento com os médicos...
- E você foi logo aceitando, não é? – Em tom de deboche.
Petrônio se irritou e numa virada passou a mão num jarro sobre o peitoril e o espatifou no chão. Helena assustou-se e percebeu que a hora não era para ciúmes ou deboches. Ela sabia que tudo aquilo só estava acontecendo por sua exclusiva culpa e que toda opinião contraria a do marido só ia servir para irritá-lo cada vez mais.
- Helena não é a questão de aceitar ou não! – Esbravejou o marido. – Julia precisa de um tratamento e aqui ela não vai ter. Eu não vou deixar minha filha sofrer só pelos seus ciúmes ou caprichos.
Neste instante, Helena assustada começou a chorar silenciosamente. Continuava o marido a expor os motivos daquela decisão.
- Vou mandar Julia sim pra capital. Quer você queira ou não e ponto final.
Petrônio saiu da sala de jantar fumaçando e Helena sentou-se na poltrona a chorar. Não havia resquício de culpa pelo que ela tinha proporcionado á filha. No fundo no fundo Helena se sentia derrotada pela irmã, vencida e traída pelas circunstancias que ela mesma proporcionou. Se ela não tivesse ferido a filha, talvez nada disso estivesse acontecendo. A situação a deixava em desvantagem diante da irmã.
No dia seguinte Petrônio partiu para a cidade com a filha. Helena não se opôs em arrumar as malas da filha. Beijou-lhe a testa e se despediu com lágrimas nos olhos.
- Não chore mãe, tudo vai ficar bem. – Falou Julia com um sorriso no rosto.
Na capital Manuela não sabia o que estava acontecendo. Qual teria sido a decisão de Petrônio e como teria sido a conversa com a irmã.
Os negócios prosperavam no estabelecimento e a noite prometia com festas e bebedeiras. Enquanto isso, Manuela fitava uma taça de vinho, talvez imaginando a primeira noite que ela se entregou para o amante Petrônio.
- Posso saber o que se passa nesta cabecinha? – Perguntou Zenaide, interrompendo os pensamentos de Manuela que divagavam.
- Sabe Zenaide, uma vez uma das meninas me falou que pra gente ser feliz, alguém ter que ser infeliz. Quando ela me falou isso eu achei um absurdo, mas hoje eu sinto que é verdade. É como se fosse uma compensação. Eu fico feliz, se tirar a felicidade de alguém...
- Por acaso a patroa tá falando do ga ran hão? – Falou pausadamente Zenaide se referindo a Petrônio.
- Ôpá! Não lhe dei esta liberdade. Mas já que fostes ousada, o motivo é ele mesmo.
Zenaide e Manuela tinham cumplicidade em muitas coisas, ou quase tudo que acontecera em suas vidas.
- Pois não demore muito tempo ai divagando em pensamento, que o desembargador acabou de chegar.
A noite era de show e o maior cliente acabara de chegar. O desembargador.
Um homem velho, envolvidos nos meios políticos, de idade entre oitenta e noventa anos, que bancava as coisas de Manuela há muito tempo. Era uma espécie de amante oficial, e que ela o tratava com exclusiva atenção.
Foi ele quem investiu naquela casa de shows, nas prostitutas e apadrinhou tudo. Era para ele que ela devia favores e lhe servia a hora que fosse.
Raramente o Desembargador comparecia naquela casa, pois seu estado de saúde não mais permitia farras ou orgias. Quando chegava, queria toda atenção e pedia para subir para os quartos, como nos velhos tempos, porém o resultado de hoje era outro.
Manuela fazia-lhe todas as vontades. Subia para o quarto e já levava uma taça de vinho do bom.
Ele se sentava na beira da cama e pedia para ela tirar a roupa. Ela obedecia, levantando a saia e mostrando o espartilho. Desabotoava o vestido deixando saltar do corpete os fartos seios rígidos. Enquanto isso o velho masturbava seu pênis sem ereção, acompanhando os movimentos do seu beribéri, doença que já lhe acompanhava há quinze anos.
Eu poucos minutos, com três ou quatro goles de vinho, e sem nada conseguir, o desembargador já estava dormindo. Manuela tirava suas botas, o puxava para o centro da cama e deixava-o dormir até o dia seguinte.
Em outros tempos a coisa não era bem assim. Mas com respeito ao homem que a fez rica, ela satisfazia seu desejo, até que o dia dele partir chegasse.
A noite de festa continuava na Manu Shows e todas as meninas brincavam, bebiam e deleitavam-se naquele antro de perdição com os homens solteiros e, na grande maioria, casados, longe das suas esposas, em noites de orgias e sexo.
No dia seguinte, finalmente Julia e Petrônio desembarcam na rodoviária em que o motorista de Manuela já esperava.Colocam as coisas no carro e partiram para a casa de Manuela, que já os aguardavam.
- Ora más que surpresa tê-los de volta tão rápido!
- Oi tia, o pai falou comigo no caminho. Eu vou ficar boa?
- Olha Júlia, se depender da titia aqui, tenha toda certeza.
Manuela sabia ser amável com as pessoas, talvez por isso tenha conquistado muitas coisas na vida. 
- Bom, eu só vim deixar a Julia e já to voltado hoje mesmo. Os negócios lá...
- Mas para que tanta pressa homem? Descanse um pouco. Mandei preparar um quarto para você. Amanhã você vai, se aquiete!
Petrônio ficou meio sem jeito diante da ordenação da cunhada. Pensava ele: - Será que ela vai me querer de novo?

Tudo era de se esperar. Aquela primeira noite ficou com um gostinho de quero mais, e Manuela estava ardendo em chamas, só de imaginar o que aquele homem foi capaz de lhe proporcionar na cama.

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