sábado, 16 de janeiro de 2016

Capítulo 27 - Dor e tristeza

Diante de Petrônio estava um dos maiores especialista cirúrgico, medido de renome internacional, indicado por meio de influencia política de Manuela.

- Sr. Petrônio, Sua filha sofreu um trauma muito forte, está sob coma induzido, mas fora de perigo.
- Graças a Deus! – Petrônio então se senta aliviado. Continua o médico.
- Más no aspecto pós-operatório não tenho boas notícias. O projétil que lhe atingiu a face, perfurou o maxilar e saiu por traz lhe causando uma grande perda de sangue. Este trauma provocou o deslocamento da retina.
- Sim Dr. E o que isso significa?
- Ainda é cedo para ter uma certeza, precisamos que ela acorde e se recupere da cirurgia para uma melhor avaliação, mas é provável que ela perca a visão. Mas como eu disse, somente uma avaliação por um especialista vai dar a certeza. Já providenciamos um médico para tratar disso. Com licença. – E se retirou.
Aquela notícia não foi das piores, porque afinal de contas sua filha estava viva e fora de perigo, mas deixou Petrônio muito triste.
A retina é uma fina estrutura de tecido nervoso que reveste a parte interna do olho. Quando parte ou a totalidade da retina se desprende da parte posterior do olho, há o descolamento da retina.
Descolamento da retina geralmente começa quando o gel vítreo, um gel espesso que se encontra dentro do olho, encolhe e separa-se da retina em um processo que pode ser natural do envelhecimento, bem como decorrente de traumatismos, no caso de Julia a perfuração da face. 
Quando o médico falou em especialista, é bom lembrar que na década de 50, era comum que um mesmo médico cuidasse de olhos, ouvidos, nariz e garganta. Nos anos 60, começaram a surgir os profissionais especializados em oftalmologia.
- Petrônio, não há nada que possamos fazer aqui. Vamos para casa, você precisa trocar esta roupa, tomar um banho e descansar. Julia esta sendo bem cuidada e não vai acordar agora. – Falou Manuela com serenidade e atenção.
- Não, prefiro ficar aqui até que minha filha acorde.
- Isso não vai adiantar, além do mais este sangue em sua roupa pode causar problemas para sua saúde. Vamos, por favor me ouça.
Diante do pedido consciente de Manu Petrônio resolveu atender e se levantou da cadeira, sendo acompanhado por Carol e o motorista.
A verdade é que nada tinham a fazer ali. A equipe médica estava acompanhando a jovem que requeria cuidados especiais, apesar estabilidade clínica.
Dois dias se passaram e Julia finalmente começa a acordar do coma induzido. 
Na cabeceira da cama, já fora do centro cirúrgico, Petrônio assiste os movimentos da sua filha que começa a esboçar algumas palavras.
- Pai, mãe, onde é que estou?
- Calma Filha. Papai tá aqui pra cuidar de você. Fique quietinha, não faça esforço e não fale muita coisa. Você sente alguma dor?
- Sim, minha cabeça dói.
Neste instante entra uma enfermeira que diz ser normal a dor, devido efeito pós operatório e o trauma, mas que está injetando um Cloridrato de tramadol 50mg como prescrição médica.
- Filha, fique calma, não faça esforço, vou ficar aqui com você.
- E a mamãe?
Petrônio demora um pouco para responder.
- Sua mãe está bem. Ela não pode vir.
Júlia estava sonolenta e adormeceu após a aplicação da medicação no soro.
E Helena? Como estaria se sentindo, por tudo que ocasionou.
Em casa Helena permanecia como se estivesse dopada. Em estado de depressão não arredou o pé do quarto. Não se alimentava a dois dias, desde que Júlia partiu para a cidade.
- Dona Helena, a Senhora não quer uma canja de galinha? Se alimente um pouco.
- Não tenho fome. Preciso saber como está minha filha.
A incerteza era o pior dos sofrimentos, já que a perda da noção do tempo não lhe permitia avaliar as circunstâncias de que algo muito pior não poderia ter acontecido.
Ninguém sabia ao certo na fazenda como Júlia estava. Não havia telefone para se comunicar, nem mensageiro que porventura estivesse voltando da cidade. O jeito era esperar até que retornassem.
Cinco dias se passaram e o quadro de Júlia melhorava a cada dia, com uma diferença. Tal qual o médico falou, ela não conseguia enxergar as coisas. Apenas vultos, mas seu pai, sem coragem de falar a verdade, dizia que ela iria melhorar a visão. Um médico especialista estava chegando para tratar deste detalhe.
O médico que Petrônio se referia já tinha chegado e diagnosticado que o problema era realmente deslocamento de retina e, poderia ser reversível ou não. Ia depender muito do tratamento dali por diante.
A medicina oftalmológica somente se tornou especializada em visão sete anos depois, contudo, a medicação prescrita a base de antibióticos e colírios era uma aposta na reversão total ou parcial daquele quadro.
O rosto inchado de Julia, lado onde houve a perfuração do projétil, seria uma marca atenuante que ela levaria para o resto da sua vida, até que pudesse ser submetida a uma cirurgia plástica reparadora.
Finamente, após vinte dias, Júlia recebe alta do e se prepara para voltar para casa. Na porta do hospital Julia para, aperta a mão do pai e pergunta.
- Pai, cadê o sol?
É inevitável conter as lágrimas diante de uma pergunta tão inocente e Júlia continua.
- Sei que não vou ficar boa da visão, mas eu quero viver assim mesmo e vou lutar para melhorar cada dia mais. Enquanto houver forças em mim, quero tocar a natureza e sentir no coração tudo que tive a graça de enxergar uma dia.
- Filha, esta é a segunda vez que você renasce nos meus braços. Estarei ao seu lado e farei de tudo para que seja feliz.

Lágrimas desciam no rosto de Júlia, que lentamente caminhou para o carro, apoiada pelo pai e pela tia, pisando cautelosamente, condenada a viver o resto da sua vida sem olhar os beija-flores, a relva do campo na fazenda e o rosto do seu amado. E seguiram de volta para casa naquele dia de sol e vento de verão.

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