sábado, 16 de janeiro de 2016

Capítulo 18 - A fujida

Por volta de cinco e meia da tarde o sol já esfriava e a sombra das palmeiras cobriam boa parte da varanda, onde o tio Miguel cochilava com um Machado de Assis sobre seu peito. Neste horário era comum a temperatura ir caindo, talvez por causa do rio Arizona que passava a um quilometro do lugarejo.

Ao longe, a visão era poética, pela contemplação dos raios do sol que trespassavam as folhas dos arbustos ao pé da serra. 
Fixando os olhos após os arbustos e palmeiras, dava para ver muita poeira levantando. Alguém vinha chegando e a galope.
Como a estrada estava a favor do vendo, começou a se ouvir o trotar dos cavalos. Era Helena e Victor que chagavam do exaustivo passeio.
Andar por aquela região de altos e baixos, montanhas, rios e lagoas não era algo tão prazeroso. No entanto era costume da época e obrigação, visitar os parentes e pedir a benção para os tios e conhecidos mais idosos. 
Aproximando-se mais ainda da casa, deu para confirmar que ambos chegavam e traziam bagagem. O Victor trazia um jacá de um lado do cavalo e dentro dele várias galinhas. Do outro lado um capão bem bonito, peado e amarrado de ponta cabeça. Se a cavalgada para quem estava sentado foi ruim, imagina para o pobre animal de cabeça para baixo!
Eles contornaram a casa, apearam dos cavalos e os puseram na cocheira. 
A proporção que foram se aproximando da varanda, Helena ouviu um barulho de choro. Era a pequena Julia que se esgoelava de tanto chorar.
Helena correu para o quarto sem nem antes fazer seu asseio e tomou a filha no colo procurando acalma-la. Olhou para a cabeceira do beco e viu a mamadeira ainda cheia de leite.
- Judite! – Gritou Helena em tom imperativo.
- Essa criança tá sem se alimentar o dia todo? Quanta irresponsabilidade. A gente te deixa tomando conta da criança, crente que vais cuidar dela e quando chega é que vê que não fizestes nada.
Helena estava muito zangada. Ao mesmo tempo que trocava a frauda de Julia, cheia de xixi e cocô, falava e resmungava, achando que a criada estava ouvindo suas reclamações. 
Ao sair do quarto para banhar a pobre criança, Helena não ouviu um pio sequer de Judite, achando estranho, mas como estava com toda a atenção voltada para a filha, continuava com seus afazeres maternos.
Após banhá-la, dar de comida e coloca-la para dormir, Helena foi a procura da criada, com tanta raiva que se a encontrasse... pobre dela.
Porém sua busca foi em vão. Agora mais tranquila, Helena procurou Judite por toda a casa e fora da casa, sem encontra-la. Perguntou ao tio Miguel, que também não a viu sair e nem ouviu o choro da Julia.
Já eram sete da noite e neste dia Petrônio havia se atrasado, coisa que não era normal, pois sempre estava em casa ao entardecer.
Jantar por fazer, quartos desarrumados e casa sem varrer Helena arregaçou as mangas e pôs-se a trabalhar, como a muito tempo não fazia. 
Da raiva à preocupação, Helena foi tomando tento da situação. Ela percebia que aquele sumiço de Judite era estranho, isso nunca havia acontecido antes, muito menos ter abandonado a Julia, deixa-la à míngua, sem comida e água... não, algo de muito estranho estava acontecendo. E Petrônio que não chegava! A preocupação ia aumentando a cada instante.
- Percebo que a prima está preocupada! – Perguntou Victor.
- Não entendo, Judite nunca fez isso antes, sempre foi muito atenciosa com minha filha e sumiu, assim de repente.
- Prima, ela deve ter estar na casa de algum vizinho a conversar e perdeu a hora.
- Não, ela nunca fez isso. São poucos os vizinhos com quem ela conversa. Judite é moça muito tímida e Petrônio também que não chega, será que...
- O que a prima está querendo dizer?
- Nada, nada, bobagem. Petrônio deve ter se atrasado por afazeres na loja. Vamos jantar que já se vai as horas.
Os três sentaram á mesa e começaram a jantar. Era notório a preocupação de Helena, fazendo Victor perceber claramente sua falta de apetite. Quase ela não tocou no prato.
Ao terminar o jantar Helena foi até porta e por curiosidade, saiu em algumas casa procurando pela criada.
Já se passava das oito da noite e a maioria dos vizinhos já haviam apago os lampiões. Poucas eram as casas que ainda estavam acordados, uma viva alma não se encontrava na rua, apenas os cachorros latindo e sapos coachando. 
Helena então parou numa casa onde dói rapazes estavam se arrumando para ir caçar e perguntou pela criada.
- Boa noite, sou moradora aqui da fazendo e to procurando uma moça que trabalha lá. Uma mulatinha, novinha que se chama Judite. Vocês a conhecem?
- Boa noite senhora. Olha eu não conheço assim muito bem não. Mas já vi ela por aqui poucas vezes.
- Por acaso vocês viram ela passar por aqui hoje, assim indo para algum lugar?
- Num vimos não. Mas espere ai que vou chamar meu tio que sempre fica por aqui pelo terreiro... Tio, tio, o senhor tá dormindo?
- Não precisa incomodar não, se não viu...
- Nada senhora, esse meu tipo nun dormi não. – De repente um senhor branco, franzino, careca e bastante idoso sai na porta da casa.
- O que é Liseu que tu me chama!
- Ô tio, a senhora aqui tá querendo saber daquela moça lá da fazenda.
- Desculpe senhor – Interrompeu Helena.- Não queria incomodar mas...
- Já sei quem é a pessoa. – Conclui o velhinho, que também tinha era deficiente de um olho e continuou.
- Eu posso até olhar com u olho só, mas vejo tudo que acontece aqui pela redondeza. Essa moça passou aqui umas oito e meia pra nove horas. Me lembro porque foi na hora que o Zeca de Alvina encostou na venda do Aristeu.
- Mas ela estava com alguém, ou alguma coisa na mão... – Perguntou Helena já nervosa.
- Olha, vejo que senhora está muito nervosa, mas vou lhe dizer que esta moça deve tá agora é longe.
Helena ficou tonta e quase cambaleou ao pensar no pior acontecido. Cadê Helena, cadê Petrônio, o que será que este pobre homem viu!

- Mas me diga meu senhor, se ela partiu, foi com mais alguém?

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