sábado, 16 de janeiro de 2016

Capítulo 23 - A falsa visita

- Entre, por favor. Mas do que se trata mesmo Sra...
- Zenaide. Dra Zenaide.

Helena diminuiu um pouco o sorriso quando a visitante frisou o título de Doutora. Soou um pouco de prepotência e aquela situação foi tomando outra proporção.
- Na verdade eu trabalho no Fórum, mas não sou do Fórum...
- A senhora, desculpe, quero dizer, Doutora, afinal de contas trabalha ou não trabalha no Fórum?
- Talvez seja um pouco complexo pra vocês do interior este entendimento, mas isso não vem ao caso.
- De certo a doutora não acha que todos do interior somos analfabetos...
- Boa tarde – Entrou de supetão o chefe da casa, antes do clima esquentar.
- Boa tarde, senhor...
- Petrônio, seu criado. Mas a quem devo a honra? Helena não me falou nada de que receberíamos visita hoje.
- E como iria de lhe falar Petrônio. Se nem eu mesmo sabia. – Frisou Helena com ares de deboche.
- Mas qual a sua graça?
- Sou a Sra Zenaide, do Fórum...
- Senhora ou DOUTORA? – Retrucou Helena com ênfase em doutora com o tom sarcástico.
E continuou.
- Há pouco a Sra fez questão de ser chamada de doutora, agora já é de senhora. E tem mais, ainda não se decidiu se trabalha ou não no fórum...
- Mas afinal o que está acontecendo aqui. – Interrompeu Petrônio com veemência. 
- Como ia dizendo, Sr. Petrônio, meu nome é Dra Zenaide e sou advogada contratada pelo fórum para dirimir sobre as terras, que estão em litígio.
- Há bom, agora entendi. – Falou Helena em tom de deboche. – Mas, continue.
- A Sra Manuela entrou com um pedido de liminar e o processo voltou a andar.
- Ora mas eu sabia que aquela megera ia mexer nisso novamente. Na verdade já ganhamos esta causa na segunda estância e ela havia falado pro meu advogado que não iria recorrer. – Respondeu Petrônio.
- Devo informar que houveram mudanças e o processo será retomado no segundo despacho. Eu vim para saber se há alguma possibilidade de acordo entre as partes.
- A Manu sabe muito bem que papai me presenteou com aquela terra e que está descartada qualquer possibilidade de acordo.
- A senhora doutora advogada sabe me dizer o que pode acontecer de agora em diante? É que já faz tanto tempo que meu advogado nem contato comigo tem mais.
- Devo lhe informar senhor Petrônio, que o processo corre estâncias e tão somente saia um novo veredicto o senhor será notificado. Mas a opinião da sua esposa é a sua ou há controvérsias?
- Posso pensar um pouco...
- Mas Petrônio, o que ainda queres pensar homem? 
- Helena as coisas não são tão fáceis assim...
- Como não? A Manu não vai desistir nunca, enquanto tu fores complacente com ela.
- Senhora Helena, talvez seu marido tenha razão...
- Ora, vá às favas! Do meu marido entende eu. – Bravejou Helena.
Todas as vezes que este assunto foi tratado naquela casa, sempre houve desentendimento. Aos pouco Petrônio ia cedendo alguma coisa e a Irma de Helena vinha se aproveitando da fraqueza do oponente. Helena estava irritada com a Zenaide e a conversa foi construindo uma antipatia inevitável.
O nariz empinado e a soberba daquela advogada só irritava Helena, que aproveitou a intromissão da visitante e a colocou no lugar, sem perder a oportunidade pela deixa da doutora, que não teve defesa para a resposta. O clima só não piorou porque Petrônio, inteligentemente, encerrou a conversa e procrastinou a visita para outro momento.
- A conversa tá encerrada. A senhora poderia me procurar amanhã lá no armazém que terei uma decisão.
- Claro, senhor Petrônio. Com licença. Sra Helena, desculpe qualquer coisa. – E foi saindo lentamente.
Antes que a visitante se retirasse sem companhia e a porta batesse, Helena, irritada já falava em tom elevado que não aceitaria nenhum acordo.
- Helena, por mim eu já tinha aberto mão de tudo aquilo, mas você fica insistindo nisso.
- É uma questão pessoal José. Mas deixa estar. Se ela quer briga, ela vai ter briga. Vou tratar disso pessoalmente com ela.
Mal sabia Helena, que a tal advogada era apenas uma isca para um plano diabólico de Manuela.
Neste momento Júlia entra na sala e percebe o clima quente entre os pais.
- Pai, mãe, aquela senhora que saiu daqui, ela foi muito simpática comigo lá fora.
- Muito me admira. Antipática que ela é. Para seu pai ela era uma senhora, pra mim, advogada. 
- A amiga dela também foi muito simpática.
- Que amiga? Só estava ela aqui.
- Não mãe, a outra estava no carro esperando por ela com o motorista.
- Estanho. Ela não me falou que tinha alguém a esperando.
- Talvez fosse a outra advogada. – Falou Petrônio sorrindo com a irritação da esposa.
- Ora, me poupe Jose! Julia, vamos tomar o café que estas atrasada para a escola.
- Helena, porque não convidou a doutora Zenaide para o café?

Petrônio não espera a resposta, mas ouve o barulho do sapato de Helena zunir na parede.

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