quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Capítulo 37 - O aperreio

Seguiram-se por dias os comentários da festa na casa do comendador. Sociedade hipócrita era aquela. Durante as noites, entre becos e sombras dos lampiões, a maioria dos homens da sociedade visitavam o meretrício para fruição, sob a ciência e omissão das suas senhoras. Estas que agora criticam as beldades dançarinas, serviçais do sexo e do prazer.
Enquanto que no interior distante, em sua humilde fazenda, cercada de frutíferas arvores, descansava Petrônio, deitado em sua espreguiçadeira. Ao seu lado, Helena cochilava numa cadeira de vime no seu desenfado tricô.
- Helena?
- Fala Zé.
- Será o que nossa filha ta fazendo?
- Há de saber homem. Com aquela uma, espero que não esteja aprendendo o pior.

Helena até que tinha aceitado o apoio da irmã. Afinal de contas tratava-se da sua filha e pelo tom da última conversa com o marido, não haveria nada para fazer que não fosse aceitar os termos e as condições impostas pelo dono da casa.

- As vezes fico a pensar – Diz Helena fitando o horizonte com cara de paisagem. – Será que um dia minha filha vai me perdoar?
- Ora, deixa de besteira mulher. Júlia já teve esta prosa com você e da parte dela não há mágoa.
- Num sei não Zé, talvez pela condição do momento... Sei lá.

O clima era de serenidade. Não que os dois vivessem em pé de guerra. Mas era notório o nervosismo e agitação de Petrônio quando Manu esta por perto.
Por mais que os homens pensem que sabem esconder algo de uma mulher, enganam-se quando subestimam o sexto sentido feminino.
E por falar em sentido, Júlia continua a se submeter a vários exames, com bons médicos em Chicago, recomendado pelos amigos da tia que lhe acompanha ininterruptamente.
            Para Manuela não havia dificuldade em andar pelas ruas de Chicago, cidade mais populoso do estado de Illinois, terra do  blues, onde morou por cinco anos e conheceu vários homens. Freqüentou casas de shows e ouviu o estilo musical dos trabalhadores negros dos grandes latifúndios americanos, mais elétrico e mais urbano. Muddy Waters, Howlin’ Wolf e Buddy Guy são alguns dos grandes nomes do estilo musical que, na década de 1950, saíram das pequenas cidades natais para ganhar a vida na Windy City.  Estava em casa, praticamente.
Independente das suas opções de vida e trabalho, Manuela sempre foi diferente da Irmã. Mais ativa, mais pra frente e saliente na infância, a mulher de agora é resultado de ousadia, coragem e sofrimento.
Já no quarto do hotel, as duas se preparam para dormir, fatigadas das andadas do dia.
- Tia, amanhã vamos voltar naquele médico de nome esquisito?
- Que nome esquisito menina?
-Doutor...Dali Daler...
- Doutor J. Daley. Um bom cirurgião. Conheci ele no aeroporto de O´Hare ha dois anos.
- A senhora conheceu muitos homens né tia?
- Não estou entendendo onde a mocinha quer chegar! – Falou brava com Julia, olhando nitidamente para sua cama.
Júlia estava arrumando o lençol da cama. Parou, sentou-se e continuou a pergunta.
- Desculpa tia, mas eu já sei quase tudo sobre a senhora. O que a senhora faz, como vive... – Interrompeu Manuela.
- Mas que petulância! Não te dei tal liberdade menina, para este tipo de comentário.
- Eu sei da senhora e do papai!
Manuela pasmou desta vez. Arregalou os olhos e deixou cair o pequeno frasco de perfume francês que segurava. Perguntou abismada.
- Do que você ta falando? Qui...qui... seu pai! Não estou entendendo! – Gaguejou.
- Tia, eu perdi parte da minha visão, não da minha inteligência.
- Ora, pois, perdeu também a sanidade de uma vez por toda. – Nervosa ainda.
Júlia estava muito calma e tranquila e notoriamente sua tia entregava-se, pelo nervosismo que deixava transparecer.
- Percebo meu pai, quando fica perto da senhora. Naquele dia, na sua casa, vocês deixaram a porta do quarto aberta. Não pude ver, mas ouvi o que vocês faziam...
- Ora mais que atrevimento. – Interrompeu irritada Manuela.
Manuela estava aperreada e não parava de andar no quarto de um lado para o outro. Suas mãos molhadas de suor expressavam uma angustia sem fim, diante das revelações da sobrinha. Sim era Júlia quem havia passado na frente do quarto no dia que ela e Petrônio estavam no desfrute.


- Tia, tem mais uma coisa que eu preciso dizer para a senhora e que a senhora não sabe.

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