sábado, 16 de janeiro de 2016

Capítulo 34 - O alvoroço

Ouve-se um estilhaçar de vidros e o rapaz cai para o lado, livrando Júlia de um possível estupro.
Caído ao chão, as moças da casa aplicam-lhes socos e pontapés, que estonteado o sujeito sai cambaleante e ensanguentado depois de uma garrafada na cabeça.

Traumatizada, Julia em prantos permanece deitada sobre os fardos de açúcar, enquanto é possível ouvir os gritos das meninas a espancarem o estuprador. Naquele instante Manuela chega em casa e ouvindo o barulho que vinha da casa de show, corre e desce rapidamente para ver o que se passava.
- Parem com isso! – Grita a Manu. – O que é que está acontecendo aqui!?
Após o grito ensurdecedor, todas para de gritar e o jovem permanece ao chão, sentado, com as mãos protegendo a cabeça.
Todas começam a falar de uma vez, tentando explicar as razões daquela pancadaria.
- Sileeeeennncioooooo! – Grita mais uma vez Manu. – Jarbas, ponha este moleque daqui para fora e providencia para que ele nunca mais apareça por aqui, más, não precisa ir aos extremos. Entendeu Jarbas?
- Sim senhora patroa.
- Dona Manu, é que o vadinho atacou esta menina, que veio lá de cima...
- Júlia! O que você está fazendo aqui?
Manuela ainda não tinha olhado para o resto do ambiente, e ficou surpresa ao ver a jovem sobrinha, agora sentada tomando um copo com água, amparada por duas moças da casa.
- Tia, eu estava descendo a escada quando... – Interrompeu Manuela.
- Não precisa explicar nada agora Júlia. Zenaide, leve Julia lá para cima, providencie acalma-la enquanto ajeito as coisas por aqui.
De prontidão Zenaide levantou a menina e apoiando em seu braço, conduziu Júlia para o outro recinto familiar, conduzindo-a para o seu quarto.
Manuela dirigiu-se ao bar, abriu uma cachaça e entornou um copo de uma só vez, fazendo com que o líquido queimasse seu peito e lhe acalmasse os ânimos.
- Vamos meninas, vamos! Todas vocês, vão para os seus aposentos e se recomponham que daqui a pouco vamos abrir os trabalhos. – Batendo palmas a patroa acelerava e todas se dispersaram num piscar de olhos.
Em seguida Manuela subiu as escadas e caminhou vagarosamente para o quarto onde Júlia estava. Sentada na cama, de banho tomado, Julia parecia uma coitadinha, porém traquina, ao desrespeitar as ordens da tia. Sentia-se envergonhada.
Percebendo a porta abrir e conhecendo o andar da tia, ela falou em choramingo.
- Perdoa tia, eu nunca deveria ter abeto aquela porta.
- Julia, querida, você ainda há de abrir muitas portas proibidas. O problema não foi abrir a porta, nem desrespeitar uma recomendação minha. O problema foi sua falta de atitude. As meninas me explicaram o que estava acontecendo, ou melhor, o que de pior poderia ter acontecido.
- Mas tia, aquele homem me agarrou com forças, eu fiquei sem chance...
- Não Julia. – interrompeu Manuela subindo o tom. – Não foi ele quem lhe agarrou, vou você quem deixou ser agarrada, sem reação, sem luta.
- A senhora não entende! – Levantou e falou chorando. – Eu estou cega, cega tia!.
E antes que Julia se atirasse sobre a cama, Manuela puxou-a pelos braços e lhe falou em tom de repreensão.
- Não, você não está cega! Você apenas tem uma deficiência na sua visão, que pode até ser provisória ou permanente, quem sabe. Mas uma mulher, uma mulher, Júlia, só fica cega se quiser. A maior cegueira não é a da visão minha filha. Você precisa abrir os olhos da alma para a vida. Quantas e quantas vezes eu fechei os olhos para o mundo! E sabe o que me aconteceu? O mundo me atacou impiedosamente, assim como aquele bêbado cafajeste te atacou, e o que você fez? Nada, nada! Apenas se entregou para a dor, para prazer dos outros, só porque não vê?
Julia, se hoje eu sou uma mulher de fibra, de garra é porque eu reagi muito a tudo, eu lutei contra tudo de ruim que a vida poderia me impor. Não me entreguei fácil não. Eu gritei, esperneei e fui buscar tudo que eu queria na marra...
( Julia permanecia calada, sem chorar, ouvindo o desabafo daquela mulher, sua tia).
- ... Não se entregue fácil menina. Você pode até parecer frágil para os outros, por fora, mas por dentro a gente tem que ser dura, inquebrável e ao mesmo tempo doce. Tipo um amendoim, entende? Uma casca por fora e por dentro uma semente que alimenta a vida. Seja forte garota. A vida não é para os fracos, mas sim para quem souber lutar e vencer a cada dia uma nova batalha custe o que custar.
Julia então sentou-se á beira da cama, tranquila e pensativa, enquanto Manuela saiu do quarto e bateu a porta.
Aquelas palavras entraram no coração de Julia como uma flecha quente e fulminante. Ela então se deitou, pois a cabeça no travesseiro e meditou sobre tudo que ouvira da sua tia.
Apesar de muito jovem, aquela noite teria sido impar na sua vida e com certeza, no outro dia, as coisas seriam bem diferente dali por diante.
O dia amanheceu e como sempre Julia não estava na mesa para o café. Preocupada, Manuela foi até o quarto e ao abrir a porta até se assustou, ao se deparar com Julia de pé, com as malas arrumadas que disse:

- Vamos tia Manuela, estou pronta para a viagem da minha vida!

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