segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Capitulo 40 - Ciúmes


Petrônio levou um susto. A lata com água caiu da sua mão, ao mesmo tempo que virou de supetão.

O que estaria acontecendo com Helena? Pensou ele. Por todos estes anos ela nunca havia feito uma pergunta com tanta maledicência.

Estaria sua depressão afetando seu comportamento?

- Vamos homi, estou esperando!

- Ora, ora, não acredito que você está fazendo uma pergunta dessa muié. Sem pé, sem cabeço. Que diacho é esse? Enlouqueceu de vez? Você sabe muito bem...

- Eu sei muito bem sim! – Interrompeu Helena com voz alta e enfática.

- Eu sei que você anda se deitando por aí com essas sirigaitas!

- Quem te falou uma doidice dessa? Agora anda ouvindo fofoca?

- Não importa quem seja. Meu pai já dizia, onde há fumaça tem fogo.

- Helena meu amor, isso é coisa da sua cabeça. Você anda cansada, sofrendo com a doença da nossa filha e isso tá mexendo com a sua cabeça. Procure descansar vai, se aquiete, para com isso e vá se deitar. – Petrônio falou amavelmente, pois ele sabia que não adiantava se estressar com Helena naquele momento. De certo ele sabia que ela estava cobrando ciúmes e era verdade o que o vilarejo falava a seu respeito. Começar uma briga naquele momento era tudo que ele precisava evitar.

Helena olhava fictamente para o rosto do seu marido. Seus olhos brilhavam de raiva. Ela sabia que seu marido nunca iria confirmar nada.

Ela estava enlouquecendo, literalmente. Sua forma de falar, olhar eram característicos de uma pessoa esquizofrênica. Sofria cada dia mais e estava à beira da loucura.

A pobre mulher virou-se de costas e saiu apressada, quase que correndo, subindo os degraus para casa.

Dessa vez Petrônio sentiu pena da sua esposa.

Enquanto a água caia pelo seu corpo, seu olhar fixo para o nada, traduzia seu pensamento divagando no tempo.

Ele sabia que Helena precisava de ajuda. De um médico ou alguém que pudesse ajudar aquela que era mãe da sua filha. Pensou em ir para cidade procurar um doutor de cabeça.

Terminou o banho e foi para o quarto.

- Helena, preciso falar com você. – Helena estava sentada numa cadeira de balanço, em frente à janela. Uma fina cortina balançava ao soprar de uma brisa fria.

Ela olhava fixamente para fora da janela e nada respondeu. Petrônio continuou.

- Meu amor, você precisa se tratar. Quero que você vá comigo amanhã pra cidade. A gente procura um médico... você precisa parar de se culpar pelo que aconteceu...

- Eu não preciso de médico – Interrompeu Helena, com voz lenta.

- Só quero ficar aqui, sozinha. Esperando minha filha chegar, feliz, enxergando tudo. Como antes. Correndo na campina, brincando... – Começou a rir estranhamente.

- Para com isso Helena. Você sabe muito bem que... – Interrompeu gritando.

- Não! Você é que não sabe de nada! Todos os dias eu acordo com aquele barulho do tiro, eu vejo ela no chão morrendo...

- Mas ela não morreu! – Falou Petrônio segundando nos braços dela e se abaixando na sua frente.

- Me deixa em paz... por favor... (chorando)

Petrônio se levantou e foi se afastando, olhando a dor que aquela mulher sentia. Agora sim. Ele estava convencido que Helena precisava se tratar.

No dia seguinte Helena acordou cedo e foi para o estábulo. Ela montava bem, porém ultimamente ela não estava montando seu cavalo predileto.

Petrônio chegou na porta da varanda com a xícara de café na mão, olhou de longe a esposa, balançou a cabeça e voltou para dentro.

Antes de chegar na loja, Petrônio parou no mercado para comprar fumo de rolo. E quando já estava saindo, mexendo no arreio para subir no cavalo, uma mão pegou no punho da sua camisa e o puxou. Ele virou-se e quase derrubou aquela senhora, baixinha, negra e bem velhinha. Com um vestido branco e pano na cabeça, a senhorinha pediu para ele aproximar o ouvido e falou em voz baixa.

- O que essa moça tem, nenhum homem de branco vai curar. Eles precisam sair da sua casa e deixar ela em paz.

Aquela voz baixa e lenta, dizia algo que ele não entendia. Mas tinha uma ternura nas suas palavras.

-Vozinha, eu não entendi o que a senhora está falando.

- Vai entender filho. Na hora certa você vai entender. – E foi se afastando lentamente com sua bengala.

De todos os moradores daquele povoado, Petrônio nunca havia visto aquela boa velhinha por lá. Deveria ser alguém que vivia trancada no quarto de alguma casa. Talvez fosse isso.

Montou o cavalo e saiu cavalgando. Aquelas palavras doces ecoavam no seu pensamento, enquanto lhe dava alguma paz.

Mas Petrônio não era homem de superstição. Muito mal sabia fazer o sinal da cruz e rezar o Pai Nosso.

Em determinado momento na estrada seu cavalo parou abruptamente. Relinchava, levantava as patas e não atendia às ordens de caminhar para frente. Numa destas empinadas Petrônio quase caiu e rapidamente desmontou o cavalo.

- Que diacho é isso! - Falou brabo segurando o arreio, enquanto o cavalo muito agitado dava passos para trás e girava enlouquecido.

De repente o cavalo parou de vez e se acalmou. Momento em que Petrônio vira-se rapidamente e olha algo ou alguma coisa na sua frente.

 

( continua no próximo capítulo)

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