Petrônio levou um susto. A lata com água caiu
da sua mão, ao mesmo tempo que virou de supetão.
O que estaria acontecendo com Helena? Pensou
ele. Por todos estes anos ela nunca havia feito uma pergunta com tanta
maledicência.
Estaria sua depressão afetando seu
comportamento?
- Vamos homi, estou esperando!
- Ora, ora, não acredito que você está
fazendo uma pergunta dessa muié. Sem pé, sem cabeço. Que diacho é esse?
Enlouqueceu de vez? Você sabe muito bem...
- Eu sei muito bem sim! – Interrompeu Helena
com voz alta e enfática.
- Eu sei que você anda se deitando por aí com
essas sirigaitas!
- Quem te falou uma doidice dessa? Agora anda
ouvindo fofoca?
- Não importa quem seja. Meu pai já dizia,
onde há fumaça tem fogo.
- Helena meu amor, isso é coisa da sua
cabeça. Você anda cansada, sofrendo com a doença da nossa filha e isso tá
mexendo com a sua cabeça. Procure descansar vai, se aquiete, para com isso e vá
se deitar. – Petrônio falou amavelmente, pois ele sabia que não adiantava se estressar
com Helena naquele momento. De certo ele sabia que ela estava cobrando ciúmes e
era verdade o que o vilarejo falava a seu respeito. Começar uma briga naquele
momento era tudo que ele precisava evitar.
Helena olhava fictamente para o rosto do seu
marido. Seus olhos brilhavam de raiva. Ela sabia que seu marido nunca iria
confirmar nada.
Ela estava enlouquecendo, literalmente. Sua
forma de falar, olhar eram característicos de uma pessoa esquizofrênica. Sofria
cada dia mais e estava à beira da loucura.
A pobre mulher virou-se de costas e saiu
apressada, quase que correndo, subindo os degraus para casa.
Dessa vez Petrônio sentiu pena da sua esposa.
Enquanto a água caia pelo seu corpo, seu
olhar fixo para o nada, traduzia seu pensamento divagando no tempo.
Ele sabia que Helena precisava de ajuda. De
um médico ou alguém que pudesse ajudar aquela que era mãe da sua filha. Pensou
em ir para cidade procurar um doutor de cabeça.
Terminou o banho e foi para o quarto.
- Helena, preciso falar com você. – Helena estava
sentada numa cadeira de balanço, em frente à janela. Uma fina cortina balançava
ao soprar de uma brisa fria.
Ela olhava fixamente para fora da janela e
nada respondeu. Petrônio continuou.
- Meu amor, você precisa se tratar. Quero que
você vá comigo amanhã pra cidade. A gente procura um médico... você precisa
parar de se culpar pelo que aconteceu...
- Eu não preciso de médico – Interrompeu Helena,
com voz lenta.
- Só quero ficar aqui, sozinha. Esperando
minha filha chegar, feliz, enxergando tudo. Como antes. Correndo na campina,
brincando... – Começou a rir estranhamente.
- Para com isso Helena. Você sabe muito bem
que... – Interrompeu gritando.
- Não! Você é que não sabe de nada! Todos os
dias eu acordo com aquele barulho do tiro, eu vejo ela no chão morrendo...
- Mas ela não morreu! – Falou Petrônio
segundando nos braços dela e se abaixando na sua frente.
- Me deixa em paz... por favor... (chorando)
Petrônio se levantou e foi se afastando,
olhando a dor que aquela mulher sentia. Agora sim. Ele estava convencido que
Helena precisava se tratar.
No dia seguinte Helena acordou cedo e foi
para o estábulo. Ela montava bem, porém ultimamente ela não estava montando seu
cavalo predileto.
Petrônio chegou na porta da varanda com a
xícara de café na mão, olhou de longe a esposa, balançou a cabeça e voltou para
dentro.
Antes de chegar na loja, Petrônio parou no
mercado para comprar fumo de rolo. E quando já estava saindo, mexendo no arreio
para subir no cavalo, uma mão pegou no punho da sua camisa e o puxou. Ele
virou-se e quase derrubou aquela senhora, baixinha, negra e bem velhinha. Com
um vestido branco e pano na cabeça, a senhorinha pediu para ele aproximar o
ouvido e falou em voz baixa.
- O que essa moça tem, nenhum homem de branco
vai curar. Eles precisam sair da sua casa e deixar ela em paz.
Aquela voz baixa e lenta, dizia algo que ele
não entendia. Mas tinha uma ternura nas suas palavras.
-Vozinha, eu não entendi o que a senhora está
falando.
- Vai entender filho. Na hora certa você vai
entender. – E foi se afastando lentamente com sua bengala.
De todos os moradores daquele povoado,
Petrônio nunca havia visto aquela boa velhinha por lá. Deveria ser alguém que
vivia trancada no quarto de alguma casa. Talvez fosse isso.
Montou o cavalo e saiu cavalgando. Aquelas
palavras doces ecoavam no seu pensamento, enquanto lhe dava alguma paz.
Mas Petrônio não era homem de superstição.
Muito mal sabia fazer o sinal da cruz e rezar o Pai Nosso.
Em determinado momento na estrada seu cavalo
parou abruptamente. Relinchava, levantava as patas e não atendia às ordens de
caminhar para frente. Numa destas empinadas Petrônio quase caiu e rapidamente
desmontou o cavalo.
- Que diacho é isso! - Falou brabo segurando
o arreio, enquanto o cavalo muito agitado dava passos para trás e girava
enlouquecido.
De repente o cavalo parou de vez e se
acalmou. Momento em que Petrônio vira-se rapidamente e olha algo ou alguma
coisa na sua frente.
( continua no próximo capítulo)
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