sábado, 16 de janeiro de 2016

Capítulo 13 - Conversa fatal

Judite esperava tudo, menos aquela pergunta. Pasma e nervosa, ela não sabia o que fazer. Aproveitava-se da oportunidade e acabava com aquele tormento ou emudecia e deixava tudo como
estava? Ao certo, uma coisa ela sabia, que contando a verdade sua vida não seria como antes. Havia o lado ruim; a dor, prevaricação e a vergonha. Mas por outro lado, o conforto de ter um lar de verdade, seu quarto e seus objetos pessoais, sua boneca de pano ao lado da rede, poderiam sumir dali em diante. Na sua inocência e imaturidade, de alguém sem instrução e sem afetividade materna, só lhe restava agir por um instinto selvagem, mesmo provida de inteligência, conforme ela vinha demonstrando ao longo dos últimos dois anos. Judite não era mais uma criança e sabia perfeitamente distinguir o bom do ruim.
- Não dona Helena. Isso nunca aconteceu... – Mas Helena a interrompeu abruptamente.
- Ora Judite me poupe. – Falou virando-lhe as costas e apoiando-se sobre o espelho da cadeira da mesa de jantar.
- Há muito tempo que sofro por isso. Hoje você já é uma moça, pronta, ajeitada de corpo e não seria a única que Petrônio, quero dizer, os homens não tivessem cobiça. Não sou boba Judite e nem tão pouco preferia estar lhe falando estas coisas que me atormentam e angustiam o coração...
Judite permanecia em pé, cabisbaixa e olhar fixo no chão, braços caídos e mãos entrelaçadas. Como se querendo que naquele instante abrisse um buraco no chão e ela caísse. Não importava que fosse um buraco para o inferno, contanto que algo a fizesse sumir dali. E Helena continuava.
- Eu dei uma filha à ele, mas parece que isso não foi suficiente... – Lágrimas desciam do rosto de Helena.
- Quantas e quantas noites, meu Deus! eu preferi fingir que dormia ao aceitar ouvir os paços de Petrônio saindo do quarto e indo... Não, você não sabe o que é isso. Quantas e quantas vezes eu neguei a mim mesma essa traição! Sei que a culpa não é sua, fui omissa demais, me abstive demais, pra que? Pra deixar chegar aonde chegou? Quantos chás e ervas eu lhe obriguei a tomar para que você não tivesse um filho, não engravidasse!
Nesse momento Judite levantou o rosto com espanto, mas nada falou e baixou em seguida. Continuava Helena.
- Fui tola, fui burra, fui idiota, mas eu merecia isso. – Falava agora em desespero e Judite assustada ainda.
- Me sinto culpada sim. Como eu pude ser tão conivente durante todos estes anos em saber que meu homem, meu homem! Deitava-se com a própria criada? Lembro-me das palavras da minha avó falando pra minha mãe. Presenciei meu pai várias vezes furnicando com as negrinhas no celeiro e... só sentia raiva, nojo. – Helena desabafava em prantos.
- Agora me diga, quantas vezes fostes mulher pro meu marido? Fala sua vadia! – Helena segurava Judite pelos braços e chorava copiosamente.
A personalidade forte de Petrônio e a submissão de Helena eram razões para uma época e corroboravam para que fatos dessa natureza acontecessem. A sociedade machista e o autoritarismo estavam longe de acabar. Como Helena pôde deixar aquilo acontecer durante muito tempo? Será que ela preferia a dúvida, que a certeza?
Nesse instante Judite afastou-se e saiu em disparada para o seu quarto, enquanto Helena ajoelhada ao chão chorava bastante.
Era nítida a postura de Helena como mulher excluída e submissa, característica na década de trinta, herdada de uma estrutura patriarcal dentro do núcleo doméstico, que viria a entrar em transformação somente anos depois.
Apesar do desabafo de Helena, as coisas voltaram ao normal dias seguintes entre elas, sem que Petrônio percebesse algo de diferente entre a esposa e a amante. Aquele instante de desespero, agonia e explosão de Helena foi uma ruptura de um passado e de agora em diante, as coisas não seriam tão fáceis para o marido, pois sem que ele soubesse de nada, ficou consubstanciado para Judite que a ordem era evitar qualquer coisa.
Apesar da pouca idade, agora adolescente, Judite entendera o porquê daquelas ervas bebidas.
Mas depois de toda tempestade vem a bonança e os ventos sopravam a favor daquela família, com algo de novo que estaria para acontecer.
- Zé, tenho uma novidade pra tu.
- Mas o que é, diz logo.
- Nossa filha já tem um dentinho!
- Ora mas que noticia boa. Agora ela vai poder roer os milho que vou trazer pra ela.
- Deixa de besteira homem, que ela não tem idade pra comer estas coisas inda.
- Então, pra que serve os dente?
- Ahhh, que tu não tem jeito mesmo – Falou Helena meio que irritada, enquanto Petrônio sorria da sua cara.
A noite, durante o jantar...
- Zé, tenho outra novidade pra tu.
- Já sei, Julia botou outro dente?
- Não ainda. Sabe o filho do tio Miguel, aquele que veio aqui uma vez?
- Me lembro dele sim, muito danado, tá fazendo um tempo já.
- Pois é. O tio tá mandando ele pra vir passar as férias aqui com a gente mês que vem.
- Ué! Mas esse menino não tava pras Europa?
- Tava, mas chegou e quer vir pra cá. Já tá moço, tem uns vinte e dois anos já.
- Tá bom. Mas pede pro teu tio ajudar na mesada dele que não tenho filho grande não.
- Disso não te preocupa que o tio sempre foi atento com esse tipo de coisa.
Se Petrônio soubesse quem era agora aquele menino de antes, não teria permitido a sua vinda e lhe pouparia muitos tormentos que ainda teria de passar naquelas férias de vinte dias.
O mês seguinte chegou e eis quem apita pela manhã cedo? O tio de Helena com o seu filho de malas e cuias.

A família na varanda a esperar, quando Victor desce do carro e para surpresa de todos...

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