sábado, 16 de janeiro de 2016

Capítulo 21 - A safadeza

- Júlia, não demore no banho que seu pai chegou – Gritou Helena da cozinha.
- Cheguei e tô com uma fome daquelas!
- Êita Zé que tu não tem jeito mesmo. Olha a lama que tuas botas vêm deixando!
- Mas não era pra menos. O tanto de água que tá lá fora, parece que o céu vai desabar.
- Ah, mas também tem dó de nós. – E Helena foi pegando um pano e limpando as marcas de lama.
Como de costume, o marido sentou-se na poltrona e a esposa tirou suas botas e enxugou seus pés ensopados de água. Petrônio parecia cansado. Desde o fim da segunda guerra mundial em 1945 que as coisas não iam muito bem na sua loja. Aqueles dez anos, desde 1944 foram ruim para o Brasil, influenciado pelas forças internacionais e instabilidade política. E por falar em guerra..
- Chegou uma carta da tia Walmira
- Quem é Walmira – Perguntou Petrônio.
- Ô siô. A mulher do tio Miguel!
- Ah sim, faz muito tempo, que nem lembrava.
- Ela disse que o tio não tá muito bem. Agora deu pra falar coisa com coisa.
- É a velhice.
- Não é não. Desde que o primo não deu mais notícia que ele vem piorando a cada dia.
- Que primo?
- Aff Maria! Parece que tu tá demente hoje! Não se lembra do primo Victor?
- Ora como não ei de lembrar. – Petrônio frisou a testa.
- Pois é, desde que começou a guerra que ele só mandou duas cartas. A última foi... se eu não me engano em 1942. O tio falou que ele tava envolvido num movimento lá na França. Acho que ele morreu.
- Já foi tarde – Falou Petrônio baixinho.
- O que você falou? – Indaga sua esposa abismada.
- Não... quero dizer, que Deus o tenha. Bom rapaz!
Os poucos dias que o Victor passou na casa de Petrônio não lhe deixou boas recordações, pela situação naquela época. Não que ele tivesse ficado com raiva do rapaz, mas aquela noite torturante lhe deixou sequelas por muito tempo.
- Sua benção pai.
- Deus te abençoe e te faça feliz. O que a menina Julia fez hoje? – Desde os treze anos que Petrônio chama assim sua filha. Com dezessete anos, quase já adulta, ele ainda a trata como uma criança, sem saber que de criança... vamos acompanhar a história.
- Só ajudei a mãe.
- Petrônio, acho que a Julia precisa de uma escola melhor. Hoje ela não teve aula de novo, não só por causa da chuva, mas a escola é longe e as professoras quase não vão... – Interrompeu Petrônio.
- Nós já falamos sobre isso e eu pensava que o assunto tinha encerrado. A menina Júlia não precisa ir pra cidade estudar. Aqui tá muito bom. Ela ajuda você e daqui a pouco vai ajudar o pai na loja.
- Petrônio, nossa filha precisa de uma educação melhor. Dizem que na cidade tem escola com curso ginasial só para meninas...
- Minha palavra é não e tá decidido!
A mãe sempre deseja algo melhor para os filhos, mas a ignorância do marido lhe tirava do sério. Ela interrompeu a discussão, pois sabia que o cabeça dura não iria mudar de opinião naquele momento.
O duro golpe do presidente Getúlio Vargas em 1937 interrompeu algumas mudanças na educação que vinham sendo discutidas desde 1932. Helena sabia que em cidades mais desenvolvidas o ensino profissionalizante era mantido pelo estado e indústrias, além de existirem já escolas exclusivamente femininas. Mas nada disso importava para o patriarca da família e assim Júlia ia sendo educada.
O jantar naquele dia não foi dos melhores. Petrônio de cara emburrada e Helena do outro lado degustavam as iguarias sem muito apetite. Júlia só acompanhava calada. Ai dela se abrisse o bico, seria engolida por um dos dois.
Terminado o jantar, Petrônio foi trocar de roupa enquanto as duas tiravam a mesa e cuidavam em lavar as louças.
Com os olhos lacrimejando e voz embargada Helena comentou com a filha.
- Não te preocupa filha, que se depender de mim essa conversa não vai ter fim, até que eu convença teu pai a te deixar estudar.
- Mãe, a senhora sabe como o pai é, só vai procurar mais confusão.
- Já tolerei muita coisa nesta casa. Eu também tenho direito a minha opinião.
Talvez Helena estivesse poupando mostrar suas garras. Ela sabia que, independente do poderio machista, quando ela queria uma coisa ela conseguia. Já havia demonstrado isso há alguns anos, quando enfrentou o marido frente àquela relação que já sabemos.
Terminada as arrumações, as duas se recolheram ao quarto.
Júlia então se sentou na beira da cama do seu quarto e ficou imaginando como seriam suas novas colegas de escola. Diferentemente de uns gatos pingados e paredes de barro, achava que haveria corredores imensos, muitas alunas nos corredores, pátios de lazer, professoras bem vestidas, salas com cadeiras de madeira e porta cadernos, seus cadernos todos encapados e não apenas uma tabuada e um borrão em papel jornal. Mas tudo não passava de um sonho. Era preciso mais que muitas brigas para que ela realmente chegasse naquela escola tão almejada. Seus pensamentos divagavam quando ouve um barulho lá fora, tipo um assobio fino.
Júlia corre para a janela e confirma que alguém assobia lá fora. Cuidadosamente ela abre a janela e vê um vulto entre as folhagens. Volta para a cama e veste uma camisola por sobre seu chambre.
Dizem que tudo que é proibido é bom. De fato, o que Júlia estava por fazer era mais do que proibido, era um risco de vida.
Com um lenço branco ela acena como se fosse um sinal de retorno. Em seguida abre uma folha da pesada janela que dá para o fundo da casa e pula. Descalça ela anda sorrateiramente em direção a um pé de abricó.
E adivinhem que estava ali? Não mais corajoso que o Super- Homem, herói mais popular de todos os tempos, lançado em junho de 1938 pela dupla americana de universitários, Joe Shuster e Jerome Siegel, o próprio Matheus, seu namorado!
- Você é louco, minha mãe terminou de entrar no quarto com meu pai. – falou Júlia baixinho.
- Não aguentava mais esperar...
E foi beijando Júlia, que correspondeu prontamente. Era ardente aquele beijo e os dois se abraçavam como num profundo sentimento de saudades.
Ela encostada na arvore, ligeiramente inclinada, sentia o corpo de Matheus sobre o seu. Não conversavam mais nada, e não houve tempo para conversas, só paixão.
O tempo era pouco e o risco enorme. Seu pai poderia vir à frente da casa e perceber algo nos fundos, era o fim. Fim de uma paixão, pois certo que dessa vez ele a mandaria até para fora do país, isso se não acabasse com a vida do rapaz antes.
Mas não dava tempo para calcular este risco. Ela de criança não tinha nada e seus pensamentos insanos faziam com que prevalecesse os desejos da carne. Matheus afastou-se um pouco e abriu a camisola de Júlia. Beijava seu pescoço e se esfregava sobre o corpo dela, que correspondendo suspirava ofegante, as vezes laçando sua perna direita nas pernas do rapaz enquanto sentia a pulsação do seu sexo e toda sua virilidade. A mão do jovem acabara de tocar seus pequenos e rígidos mamilos, quando...
- Tem alguém ai? – A voz do seu pai vinha lá da frente, com um candeeiro na mão, como se tentando decifrar algum vulto na escuridão.

(Continua na próxima) 
Autor, Celso Valois

Nenhum comentário:

Postar um comentário