sábado, 16 de janeiro de 2016

Capítulo 28 - O arrependimento

A viajem foi longa e demorada, naquela estrada cheia de buracos e lagoas imensas. Manuela sentia na pele, no solavanco do carro, que boa parte do dinheiro deixado no seu bordel pelos políticos, poderiam ter sido aplicados em obras em favor do povo.
Finalmente começam a chegar no povoado e Júlia percebe pelo cheiro do campo e das estribarias que adornam a entrada da fazenda.
- Petrônio, acho prudente não ir até sua casa. Vou pedir para que o motorista me deixe mais à frente até retornar.
- Mas que bobagem é essa cunhada. Afinal de contas nós devemos um grade favor a você. Vixe Maria se não fosse sua presteza... – Manu interrompe Petrônio.
- É Petrônio, mas nós não sabemos o que nos aguarda pela frente. Vai que sua esposa resolve consumar o fato. – Fala a cunhada em tom irônico.
- Tia, não sei o que se passou na cabeça de mamãe, não me recordo direito, mas o pai vai entender que é melhor a senhora aguardar aqui, né pai?
- Claro filha. Você tá certa.
- Pode para ai, daqui a pouco é a curva da fazenda, eu aguardo nesta tapera aqui.
Então Manuela desceu do carro enquanto todos seguiam para a fazenda.
Júlia esta certa de que muitas coisas poderiam ter acontecido na sua ausência. Apesar de jovem, ela era uma menina astuta e observadora.
Finalmente o carro adentra o terreiro e ei que da janela Helena obseva por entre as cortinas a chegada da filha e do marido.
- Pai, me ajuda a descer aqui,não sei de que lado estamos.
- Segura minha mão filha. Ô moleque, corre aqui e ajuda tirar estas coisas do carro, não fica aí só olhando não!
O carro dá ré e vai saindo enquanto Júlia anda vagarosamente apoiada ao pai, até que na varanda da casa Helena vai aparecendo e caminhando em direção à filha.
No pé da pequena escada, Júlia para e chama pela mãe.
- Mãe.
Helena vai descendo as escadas, se segurando no corremão sem conter o choro, ao ver sua filha com uma cicatriz no rosto e os olhos vendados por uma atadura.
- Filha! O que foi que eu fiz? Pelo amor de Deus minha filha, me perdoa filha!
Petrônio se afasta e observa aquela sena dantesca. Ela não sabia que tipo de ação teria ao ver a esposa. Se saudade, se ódio, tudo dependeria do momento, do instante daquele encontro e isso estava acontecendo ali.
Seu coração estava dividido entre a tristeza e alegria por ver a filha com a mãe e isso era claro nos seu olhos cheios de lágrima. Ele não afastava os pés do lugar. Paralisado, só observava tudo, sem nada falar, sem nada fazer.
Helena caída aos pés de Júlia ia retomando a consciência do que houvera acontecido com a filha e a culpa tinha sido exclusivamente sua.
Talvez no ímpeto de se vingar da irmã que trouxe a verdade á tona, Helena, impensavelmente fez uma grande besteira e feriu o que ela mais amava em toda sua vida.
Foi ai que Petrônio se aproximou, levando Helena pelos braços, segurou na mão da filha e as levou para dentro de casa, enquanto os vizinhos observavam da cerca o que realmente havia acontecido com a pobre menina.
Naquele dia não houve diálogo. Helena sentada na poltrona da sala observava a filha na outra cadeira. Elas conversavam sobre suas dores, as noites tortuosas, mas sem muito exagero. Júlia sabia que aquilo não passou de um acidente grave e pelo visto havia perdoado a mãe.
Mas Petrônio? O que se passava na sua cabeça depois da poeira baixada?
- Helena, vou ao armazém e só volta bem tarde, não guarde janta para mim hoje. – Falou com voz seria Petrônio.
Helena só virou um pouco a cabeça sem encarar o marido ou lhe perguntar algo. Em outra situação ela teria reclamado, dizendo que não iria lhe aguardar para o jantar, mas por outro lado ela sabia que ainda haveriam de ter uma conversa, não só pelo acidente, mas sobre todas as outras coisas reveladas naquele triste dia.
Já na estrada de volta para a cidade, Manuela olhava para a paisagem de forma serena e pensativa.
Tudo que aconteceu foi inesperado, mas ela sabia que mais do que houvera tramado e por mais catastrófico o que houve com sua sobrinha, seu plano havia dado certo.
Será que Petrônio ainda odiava Manuela?
- A vida da volta meu amor. – Falou Manu baixinho no banco de traz.
- A senhora falou alguma coisa patroa?
- Nada Tobias, nada. Estou apenas pensando alto, só. Vamos mais rápido que o caminho é longo.
Algo de estranho estava acontecendo. De todos os dias que Júlia passou internada no hospital e que Petrônio não poderia acompanha-la, onde ele fez pousada? No bordel de Manuela ou em uma pensão qualquer?
E suas roupas, suas trocas, já que viajaram às pressas sem nada providenciar?
Na verdade Manuela foi muito prestativa. Organizada e providente, a cunhada cuidou de tudo. Roupas, lençol, toalhas e material de necessidade para deixar o cunhado bem confortável. Manuela não dava ponto sem nó. 
A princípio ela não o levou para o bordel, talvez o prevenindo contra suas vorazes meretrizes, mas providenciou uma boa pensão para que ele descansasse o corpo durante todos aqueles dias.

Apenas no penúltimo dia, vésperas da alta médica de Júlia, algo de estranho aconteceu, que veio a mudar definitivamente todo ódio que Petrônio sentia antes por Manuela.

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