sábado, 16 de janeiro de 2016

Capítulo 20 - 15 anos depois

Uma chuva torrencial caía naquela tarde e Júlia contemplava os patinhos na lagoa em frente à sua casa. O outono sempre foi um período chuvoso naquela região, exceto quando há dezessete anos antes, dias de estiagem longa, seu pai lhe carregou nos braços, levando-a quase morta para o hospital da cidade.

Herdando o temperamento do pai, a jovem menina era determinada e teimosa. Assim que sua mãe se recolheu ao quarto para a cesta, ela tirou a sandália, soltou o cabelo preso com um laço e se atirou no aguaceiro junto com as outras colegas. Eles corriam no terreiro, ora banhando em baixo de uma forte biqueira que caia no canto do telhado da casa, ora se atirando em poças d´água. Era um temporal com vento e trovoadas, típico daquela estação.
Antes que Helena acordasse e Petrônio retornasse da loja, Júlia entrou, trocou de roupa e sentou-se novamente na porta da casa olhando a noite que caía, apesar do incomodo dos cupins de asa que saiam dos seus cupinzeiros em dispersão, procurando novos ninhos para reproduzirem. De vestido longo bordado e chapéu, pegava alguns cupins que pousavam sobre sua roupa e arrancava-lhes as asas. Estes nunca mais iriam voar, nem tão pouco reproduzir. Assim era sua diversão. Foram poucas as vezes que sua mãe lhe permitiu que conversasse com as demais coleguinhas do povoado. Aquela liberdade toda da tarde foi porque sua mãe estava cochilando e seu pai ausente.
- Júlia, já lhe disse pra você não ficar fazendo isso! Cheire sua mão agora, tá só cupim.
- Eu sei mãe, mas se não fizer isso, eles voltam e me atormentam de novo.
- E você acha que vai dar conta de todos eles? Cuida, entra, vai te assear que teu pai tá pra chegar.
Desde aquela época, quando Judite fugiu de casa, nunca mais tiveram criados morando. Algumas vezes vinha alguém de perto, num contrato de alguns dias, fazer a limpeza da casa ou afazeres mais pesados. Helena dava conta de tudo e assim foi criando a filha, também ajudando nas tarefas do lar.
Júlia poucas vezes ouviu sua mãe falar de Judite. Nem lembranças tinha de sua feição, pois era pequena demais para tais recordações.
- Mãe, preciso lhe contar uma coisa.
- Pois conte. O que fez de errado desta vez?
As duas eram muito confidentes. E apesar das bobagens que Julia fazia algumas vezes, ela terminava contando para a mãe.
- Hoje tarde, quando a senhora tava dormindo, eu banhei naquela chuva.
- E você pensa que eu não vi. Te conheço Jú, e espero que seu pai nem desconfie, você sabe que ele já te proibiu de andar com aquelas meninas da Veneranda, elas são passadas na casca do alho.
- Ah mãe, o pai também é muito chato às vezes...
- Olha o respeito (Interrompeu a mãe). Seu pai quer o seu bem. E outra coisa, aquele garoto, o filho da costureira não tava com vocês?
A preocupação de Helena tinha nome e se chamava Matheus. Um rapaz muito simpático, metido a galanteador e três anos mais velho que Júlia. Por duas vezes Petrônio o escorraçou da porta de casa por estar de conversa com sua filha.
- Não mãe, ele não estava com a gente. – Respondeu Júlia com um semblante triste.
Júlia era sonhadora, mas sua sagacidade não permitia se deixar levar pelo ímpeto. Reflexiva, talvez pelo excesso de tempo ocioso que tinha para pensar, ela viajava nas melodias que ouvia na vitrola pensando no seu amor secreto.

O ambiente musical romântico do início dos anos 50 no Brasil era ainda muito influenciado pelos boleros com breves resquícios dos tangos dos anos 30 e 40. E a música que Petrônio mais ouvia na sua vitrola Philips era “Ninguém me ama” de Nora Ney. Eis o tipo da música perfeita para enaltecer os amores perdidos e os não correspondidos; música suave, repleta de decepções elegantes sobre a vida amorosa, tudo na medida. 
Desde quando Júlia se entendeu como gente, que ouve o repertório eclético do pai, que ia de boleros, sambas e rumbas.
A preocupação de Helena não era em vão. A menina moça era uma mulher feita, bonita, alegre e inteligente. Não era pro bico de qualquer um, como dizia Petrônio, mas o coração de Júlia batia mais forte quando Matheus passava e lhe olhava com cobiça.

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